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Seguro garantia aduaneiro: os requisitos que a Receita Federal checa antes de aceitar a apólice

A mercadoria está parada, o Auditor-Fiscal já fixou o valor da garantia e você tem uma apólice na mão. A pergunta que decide a semana não é quanto ela custou: é se o documento passa na conferência.

Quem confere é o próprio Auditor-Fiscal da Receita Federal: a aceitação é competência dele, diz o artigo 8º, parágrafo 1º da Portaria RFB 315, de 14 de abril de 2023. E a conferência não é subjetiva. Essa Portaria, em vigor desde 1º de maio de 2023 (artigo 14), escreve o que a apólice precisa ter, o que precisa acompanhar e o que não pode conter.

Abaixo está essa lista, na ordem em que ela é lida. É o mesmo roteiro que usamos para revisar minuta antes de pedir a emissão à seguradora.

Em resumo: quem aceita a apólice aduaneira é o Auditor-Fiscal da Receita Federal, pelas regras da Portaria RFB 315/2023. A entrega tem três documentos: a apólice, a comprovação do registro dela na Susep e a certidão de regularidade da seguradora. A vigência mínima é de 5 anos, salvo na habilitação para remessas expressas. A apólice precisa manter a vigência mesmo sem o pagamento do prêmio e eleger o foro da Justiça Federal da unidade aduaneira competente, sem arbitragem. E a empresa precisa ter aderido ao Domicílio Tributário Eletrônico no e-CAC.

Antes da apólice, três documentos

Uma nota de nomenclatura primeiro, porque ela atrapalha busca e conversa. A Portaria batiza de Seguro Aduaneiro o seguro-garantia na modalidade Aduaneira (artigo 2º, VIII), e o Regulamento Aduaneiro usa a mesma expressão, "seguro aduaneiro", no parágrafo único do artigo 759 do Decreto 6.759/2009. "Aduaneiro" e "aduaneira" são o mesmo produto: aquele que a nossa página de garantia aduaneira descreve.

O artigo 3º abre a conferência, e é onde mais entrega volta, porque parece um item e são três:

Repare no inciso II: não é a apólice de novo, é a prova de que ela foi registrada. São documentos diferentes, emitidos em momentos diferentes, e mandar só o primeiro é o erro mais comum do protocolo. Ainda assim, a Receita confere a validade da apólice no próprio site da Susep, por conta própria (artigo 3º, parágrafo 2º).

A idoneidade da seguradora, por sua vez, não se prova com carta nem com histórico de mercado: ela se presume pela certidão do inciso III (artigo 3º, parágrafo 1º). Certidão vencida derruba a presunção e, com ela, a entrega.

Cinco anos de vigência e a única exceção

O artigo 3º, parágrafo 3º fixa vigência mínima de 5 anos. É o número que mais surpreende quem vem de apólice de licitação, e é ele que explica o preço: o prêmio é proporcional aos dias cobertos, então uma garantia aduaneira custa mais que uma garantia de contrato do mesmo valor. A exceção está no mesmo parágrafo e é uma só: o Seguro Aduaneiro exigido na habilitação comum para operar o despacho aduaneiro de remessas expressas, cujo prazo é igual ao prazo da habilitação.

Há um segundo prazo, e esse quase ninguém anota. O parágrafo 5º obriga o contribuinte a renovar a garantia, no valor atualizado do objeto principal segurado, caso a exigência garantida não tenha se encerrado até 60 dias antes da data da vigência da apólice. Não é recomendação: o artigo 12, VI trata o descumprimento desse dever de renovar como evento que caracteriza sinistro. Esquecer a renovação não deixa a garantia vencer em silêncio: aciona a apólice.

SituaçãoPrazo da apóliceOnde está
Regra geral (fiscalização, regimes especiais, antidumping, termo de responsabilidade)Mínimo de 5 anosartigo 3º, parágrafo 3º
Habilitação comum para remessas expressasIgual ao prazo da habilitaçãoartigo 3º, parágrafo 3º
Exigência ainda em aberto perto do fim da vigênciaRenovar até 60 dias antes, com o valor atualizadoartigo 3º, parágrafo 5º
Renovação não feita nesse prazoCaracteriza sinistroartigo 12, VI

A cláusula do prêmio não pago

O artigo 3º, parágrafo 4º exige uma cláusula escrita com todas as letras: a apólice mantém a vigência mesmo que o tomador não pague o prêmio nas datas convencionadas. A Portaria fundamenta a exigência no artigo 16, parágrafo 1º da Circular Susep 662/2022, que diz literalmente que a apólice continua em vigor nessa hipótese, e manda renunciar ao artigo 763 do Código Civil e ao artigo 12 do Decreto-Lei 73/1966.

Aqui entra o detalhe que mudou depois da Portaria. A Lei 15.040/2024, o novo marco legal do contrato de seguro, revogou os artigos 757 a 802 do Código Civil e os artigos 9º a 14 do Decreto-Lei 73/1966 (artigo 133), e entrou em vigor um ano após a publicação oficial, que se deu em dezembro de 2024 (artigo 134). Os dois dispositivos a que a Portaria manda renunciar, portanto, não estão mais lá.

A cláusula continua necessária, e por um motivo mais forte do que antes. O artigo 20 da Lei 15.040/2024 estabelece que a mora da prestação única ou da primeira parcela do prêmio resolve o contrato de pleno direito, salvo convenção, uso ou costume em contrário, e que a mora das demais parcelas suspende a garantia contratual após notificação com prazo não inferior a 15 dias para purgar a mora. A cláusula da Portaria é exatamente essa convenção em contrário. Minuta que a apagou porque "o artigo foi revogado" recriou o risco que ela existia para afastar. Vale passar a redação pelo seu despachante ou advogado antes de assinar.

E o artigo 4º fecha a porta do outro lado: o contrato não pode conter cláusula de desobrigação decorrente de atos exclusivos do tomador, da seguradora ou de ambos.

Quer a minuta conferida contra essa lista antes de emitir? Mande a exigência, o número do processo ou do dossiê e o prazo que você tem. Devolvemos os pontos que precisam de ajuste na apólice.

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Os seis requisitos do artigo 8º

O artigo 8º é a régua de aceitação, e é dura na forma: os requisitos têm de estar expressos nas cláusulas da apólice ou da carta fiança. Não basta a seguradora cumprir na prática: precisa estar escrito.

IncisoO que a cláusula precisa dizer
IValor segurado de acordo com a modalidade e o objeto
IIPrevisão de atualização automática do valor garantido, nos mesmos parâmetros do objeto garantido
IIIReferência ao número do processo, dossiê ou declaração de importação, conforme a modalidade e o objeto
IVAs situações que caracterizam a ocorrência de sinistro, nos termos do artigo 12
VEndereço da seguradora ou da instituição financeira
VIOs requisitos específicos de cada modalidade, dos artigos 10 e 11

O inciso V parece burocracia de formulário e não é: sem endereço da seguradora não há como notificá-la do sinistro, e é a notificação que dispara o prazo de pagamento. O inciso II é o que impede a garantia de envelhecer enquanto o crédito é atualizado. E o inciso VI é a ponte para o artigo 11: é ele que transforma uma apólice genérica em apólice aduaneira.

Uma boa notícia operacional está no parágrafo 2º do mesmo artigo: na concessão e na aplicação de regimes aduaneiros especiais, a aceitação do seguro-garantia pode ocorrer no curso do despacho aduaneiro, observada a legislação específica.

Modalidade Aduaneira: o artigo 11, alínea por alínea

O artigo 11 é o coração do produto. O inciso I lista cinco situações e, para cada uma, o piso do valor segurado, que deve ser igual ou superior ao indicado:

SituaçãoValor segurado mínimoAlínea
Liberação de mercadoria sob procedimento de fiscalização de combate às fraudes aduaneirasValor fixado como garantia pelo Auditor-Fiscal, conforme a legislação específicaI, "a"
Direitos antidumping ou compensatórios lançados no curso da conferência aduaneiraValor lançado, acrescido de juros, multa de mora e penalidades cabíveisI, "b"
Habilitação comum de operadora no despacho aduaneiro de remessas expressas internacionaisValor fixado para a habilitaçãoI, "c"
Crédito tributário constituído em termo de responsabilidade ou auto de infraçãoMontante do crédito, incluídos os acréscimos legais quando cabíveisI, "d"
Empresa habilitada a transportar mercadoria sob o regime de trânsito aduaneiroMontante definido pela empresa, suficiente para cobrir os tributos médios suspensos em suas operações de trânsitoI, "e"

Os outros três incisos são igualmente eliminatórios:

Essa última linha derruba minuta boa. Condições gerais de seguro-garantia costumam trazer cláusula de arbitragem de fábrica; em apólice aduaneira ela precisa sair, e o foro precisa ser o da unidade certa, não o da sede da seguradora, não o do domicílio do tomador.

Dois parágrafos resolvem a parte prática. Se o número da declaração de importação ainda não existir quando a apólice for emitida, ela deve fazer referência a documento instrutivo da declaração (artigo 11, parágrafo 1º). É a saída para quem precisa da garantia antes do registro. E a apresentação é formalizada por solicitação de juntada ao processo digital de controle aduaneiro original, no Portal e-CAC (artigo 11, parágrafo 2º), não por protocolo de balcão.

O requisito que não está na apólice

Este é o que mais pega gente de surpresa: dá para ter a apólice impecável e ainda assim não ter a garantia recebida. O artigo 9º condiciona o recebimento do seguro-garantia ou da fiança bancária à adesão do contribuinte ao Domicílio Tributário Eletrônico (DTE), pelo Portal e-CAC, ou ao Domicílio Tributário Eletrônico do Simples Nacional (DTE-SN), nos termos do artigo 122 da Resolução CGSN 140/2018.

É um requisito do tomador, não da seguradora, e ninguém avisa, porque ele não aparece na minuta. Se a empresa ainda não aderiu ao DTE, resolva isso antes de pedir a emissão: a adesão leva minutos, a apólice leva dias.

O que a Receita chama de sinistro

O artigo 12 lista os eventos que caracterizam o sinistro, e o padrão se repete: não pagar, compensar ou parcelar o valor devido em até 30 dias, contados do marco de cada situação (ciência da decisão que torna definitiva a constituição do crédito ou a exigência de antidumping, trânsito em julgado da decisão que cancela a suspensão da exigibilidade, ciência da correspondência de cobrança administrativa, ciência da rescisão do parcelamento, ciência da decisão sobre o pedido de revisão). E o inciso VI acrescenta o descumprimento do dever de renovar, que vimos acima.

Caracterizado o sinistro, a seguradora é notificada a pagar a indenização em até 30 dias contados da notificação (parágrafo 2º), por DARF (parágrafo 4º). Não comprovado o pagamento no prazo, o título é remetido de imediato à Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional para execução (parágrafo 5º). E o parágrafo 1º avisa que a caracterização do sinistro independe de qualquer outro procedimento de fiscalização ou da existência de contencioso administrativo em curso.

Quem discute o débito em juízo, e não na esfera administrativa, está diante de outra modalidade: é o caso do seguro garantia judicial.

Termo de responsabilidade descumprido

Esta é a parte que quase ninguém escreve, e é a que o importador precisa entender antes de assinar. O termo de responsabilidade é o documento em que ficam constituídas as obrigações fiscais cujo adimplemento fica suspenso pela aplicação dos regimes aduaneiros especiais (Decreto 6.759/2009, artigo 758). O artigo 759 permite exigir garantia real ou pessoal desse crédito, e o parágrafo único diz em que forma: depósito em dinheiro, fiança idônea ou seguro aduaneiro em favor da União. É a base legal do produto.

O artigo 760 dá o tamanho do risco: o termo é título representativo de direito líquido e certo da Fazenda Nacional quanto às obrigações nele constituídas. Não cumprido o compromisso, o crédito é objeto de exigência, com os acréscimos legais cabíveis.

A sequência dessa exigência está no artigo 761:

  1. Intimação em 10 dias. O responsável é intimado para se manifestar sobre o descumprimento, total ou parcial, do compromisso assumido (inciso I).
  2. Revisão do processo. À vista da manifestação, o processo vinculado ao termo é revisto, para ratificação ou liquidação do crédito (inciso II).
  3. Cobrança. Notificada a ratificação ou a liquidação, a exigência se faz por conversão do depósito em renda da União, quando a garantia era depósito em dinheiro, ou por intimação para pagar em 30 dias, nas hipóteses de dispensa de garantia, fiança idônea ou seguro aduaneiro (parágrafo 1º).
  4. A seguradora entra no circuito. Nessa segunda hipótese, o fiador ou a seguradora também é intimado (parágrafo 2º).

Dois detalhes mudam a conta. Se o interessado não apresentar a manifestação nos 10 dias, a exigência é efetivada do mesmo jeito (artigo 762). E, não efetuado o pagamento, o termo é encaminhado à Procuradoria da Fazenda Nacional para cobrança (artigo 763 do Regulamento Aduaneiro).

A diferença prática entre as três formas do artigo 759 aparece justamente aí: com depósito em dinheiro, o valor vira renda da União por conversão, sem nova conversa; com fiança ou com seguro aduaneiro, há intimação para pagamento e o garantidor é chamado, e, até esse ponto, o seu caixa não ficou parado. É o mesmo raciocínio de caixa que vale em qualquer modalidade de seguro garantia.

O checklist da minuta

Confira antes de mandar emitir:

Perguntas frequentes

A apólice precisa mesmo ter cinco anos de vigência?

Na regra geral, sim: o artigo 3º, parágrafo 3º da Portaria RFB 315/2023 fixa vigência mínima de 5 anos para o seguro-garantia oferecido à Receita. A única exceção prevista no próprio parágrafo é o Seguro Aduaneiro exigido na habilitação comum para operar o despacho aduaneiro de remessas expressas, em que o prazo é igual ao prazo da habilitação. Como a vigência entra na conta do prêmio, é ela que explica por que uma apólice aduaneira custa mais que uma garantia de licitação do mesmo valor.

Serve seguro garantia para liberar mercadoria retida em fiscalização?

É uma das quatro situações da modalidade Aduaneira listadas no artigo 2º, VI da Portaria RFB 315/2023: fiscalização de combate às fraudes aduaneiras, regimes aduaneiros especiais, habilitação comum para remessas expressas e exigência de direitos antidumping ou compensatórios. No caso da mercadoria sob fiscalização, o artigo 11, I, alínea a manda que o valor segurado seja igual ou superior ao valor fixado como garantia pelo Auditor-Fiscal. Como a aceitação é competência do Auditor-Fiscal (artigo 8º, parágrafo 1º), ninguém pode prometer a liberação.

O que acontece se eu atrasar o prêmio no meio da vigência?

A apólice não cai. O artigo 3º, parágrafo 4º da Portaria exige cláusula expressa de manutenção da vigência mesmo quando o tomador não pagar o prêmio nas datas convencionadas, na linha do artigo 16, parágrafo 1º da Circular Susep 662/2022. O que continua existindo é a dívida do prêmio, que a seguradora cobra de você, e o efeito do atraso sobre o seu limite de crédito para as próximas apólices.

A apólice precisa citar o número da declaração de importação?

Sim. O artigo 8º, III e o artigo 11, III pedem referência ao número do processo administrativo ou da declaração de importação, conforme o objeto da garantia. Quando a DI ainda não existe no momento da emissão, o artigo 11, parágrafo 1º resolve: a apólice deve fazer referência a documento instrutivo da declaração. É a saída para quem precisa da garantia antes do registro.

Quanto custa o seguro garantia aduaneiro?

O preço é o prêmio, não o valor garantido. Nas apólices que emitimos, as taxas de referência partem de 0,9% ao ano conforme o prazo, com prêmio mínimo de R$ 160 por apólice, e o cálculo é proporcional aos dias de vigência. Como a vigência mínima aqui é de cinco anos, o prêmio aduaneiro sai maior que o de uma garantia de licitação do mesmo valor. A taxa final de cada empresa só sai na cotação, depois da análise da seguradora.

Fiança bancária ou seguro garantia: a Receita aceita os dois?

Os dois. A Portaria RFB 315/2023 regulamenta as duas garantias em paralelo, cada uma com seus requisitos. A carta de fiança tem os dela no artigo 5º, incluída a renúncia expressa ao benefício de ordem do artigo 827 do Código Civil, e o artigo 6º admite prazo determinado desde que respeitado o mesmo prazo mínimo da apólice. A diferença prática é de caixa: a fiança consome o seu limite de crédito no banco, o seguro usa o limite da seguradora.

Este artigo cita a Portaria RFB 315/2023, o Decreto 6.759/2009 (Regulamento Aduaneiro), a Circular Susep 662/2022 e a Lei 15.040/2024, conferidos no texto oficial em 12/09/2026. Ele é informativo, não substitui a análise do seu despachante aduaneiro ou advogado e não antecipa a decisão da autoridade aduaneira sobre o caso concreto. A Advanced Seguros é corretora registrada na SUSEP sob o número 262181315.

Precisa entregar a garantia à Receita esta semana?

Mande a exigência, o número do processo ou do dossiê e o prazo que você tem. Cotamos com as seguradoras, conferimos a minuta contra a Portaria RFB 315/2023 e você recebe a apólice junto com os documentos que a Receita pede.

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